Histórias de Nova York


No começo dos anos 80 trabalhei na Embratur em Nova York. Ossos do ofício, vez por outra aparecia algum figuraço que acabara de descobrir o Brasil, se apaixonara pelo país, e queria fazer uma fundação, escrever um livro, fazer uma festa, programa de TV, uma exposição, enfim, queria divulgar o país a todo custo. Já que estávamos lá para isso, dávamos um cartaz aqui, uns folhetos acolá, emprestávamos uma fitas de videos turísticos caindo aos pedaços e ouvíamos o que os sujeitos tinham a dizer.

Apareceu uma vez um empertigado homem com um cartão no qual alegava ser PhD, presidente do Conselho de uma fundação de arte. Tinha um vozeirão daqueles de dar gosto, era todo empombado, metido a besta mesmo. Pois bem, foi lá no escritório algumas vezes, só que nenhum dos seus projetos saía do papel, apesar do timbre que enumerava algumas pessoas importantes no mundo artístico como membros do seu Conselho. Como não era o primeiro nem o último a falar muito e fazer pouco, não fiz muito caso desse fato.

Um belo dia me liga o Richard, era esse seu nome, com seu vozeirão radiofônico, me convidando para uma festa no seu apartamento. Disse que era "black-tie". Como eu demonstrasse alguma hesitação em alugar um smoking para ir à sua festa, disse que eu podia vir de qualquer jeito, que minha presença era importante, etc, etc. Pensei, não tenho nada para fazer, vou lá, de repente faço alguns contatos interessantes com os amigos do mr. Black-Tie, coisa pro futuro, né.

Pelo endereço, o apartamento não devia ser lá essa coisa. De fato, não combinava com uma fundação de arte, PhD e o empombado vozeirão, muito menos com affairs a black-tie.

Ao chegar no local, já fui me preparando para algo muito exótico, mas nunca a pequena espelunca que se apresentou perante meus olhos, com miríades de tralhas étnicas penduradas na parede. Realmente havia a festa, mas a única pessoa de black-tie ali era o meu anfitrião, que não perdeu a pose. Me abraçou e acolheu como se eu tivesse chegado num castelo ou na entrega do Oscar. E o pessoal da festa era pra lá de cafona, feio e desinteressante, só não vou exagerar e dizer que tinha gente até dormindo, por que não sou dado a exageros.

Mais engraçado ainda é que lá estava uma amiga minha, que eu não tinha ideia que conhecia o "poderosíssimo" do mundo das artes, e me olhou um pouco acanhada, pois ela foi a única que caiu no conto e veio com um vestido longo de festa, como se o evento fosse ao Hotel Plaza, sob flashes de muitos paparazzi.

Não foi uma perda de tempo por que me divirto à beça com mais essa história de Nova York até hoje.

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