A Litherarpia e o conflito de gerações


Ontem escrevi sobre mudanças. Hoje vou continuar um pouco a falar sobre o assunto, de uma forma um pouco diferente. Sob o ângulo do conflito de gerações.

Não posso dizer, sem mentir, que o meu pai tinha muita inclinação mecânica. Certamente não tinha, acho até que tinha um pouco de medo de motores. Mas era muito bom com madeira, fazia coisas incríveis com madeira, embora nunca tenha trabalhado nessa área.

Vez por outra perturbava-o suficientemente para construir algo para mim.

Certamente a Litherarpia foi um desafio para ele.

Já devem ter advinhado. Fiz o meu pai construir um kart de madeira, para descer voando a ladeirinha da minha rua.

Não duvidem, fez a Litherarpia de madeira. TOTALMENTE de madeira, inclusive os pneus! Sim, havia alguma coisa ou outra de outros materiais, inclusive umas rolimãs dentro do pneu.

Definitivamente não queria um carrinho de rolimã queria algo que parecesse com um kart de competição.

Não foi o primeiro nem último carro de madeira do mundo. Diversos carros de corrida tiveram chassis de madeira, por exemplo. Mas provavelmente, foi o único que tinha pneus de madeira.
Suspensão...suspensão é coisa de marica. O treco era todo duro, e não me lembro qual mecanismo de esterço ele usou, só sei que o bicho esterçava.

A Litherarpia - nome dado por mim, lógico - reinou suprema na rua, até que um menino do outro lado convenceu seu irmão a construir um carro para ele, certamente visando um racha.

Não vou dizer qual era mais bonito - ou mais feio. Digamos que o outro carrinho foi mais ortodoxo, com pneus de borracha, suspensão e tudo, mas com certeza a Litherarpia parecia mais um veículo de corrida. O Bica Votnamis teria gostado dela.

Um belo dia a Litherarpia quase me mata.

A rua era suficientemente tranquila para podermos usar a Litherarpia na sua plenitude até mesmo no recém colocado asfalto, mas vez por outra, em dias de semana, éramos forçados a usar a calçada, para terror dos pedestres.

Como disse, a rua tinha um certo aclive, mas além disso, tinha uma calçada um tanto desastrada, cheia de imperfeições. Numa dessas, não lembro se estava desviando de um pedestre ou se dei uma mancada, só sei que entrei com a Litherarpia num defeito da calçada que simplesmente lançou o pequeno veículo, que capotou em cima de moi.

Cheguei a perder a respiração durante algum tempo, a Litherarpia era pesada, e já vinha embalada do topo da ladeirinha e eu era magrinho que nem o Arturo Merzario, embora comprido para a idade.

Nem em, nem a Litherarpia fomos destruídos pelo acidente. Logo estava normal, respirando até hoje, só que minha mãe ficou furiosa, e ordenou a destruição do bólido.

Muitos moleques da minha geração andaram de carrinho de rolimã. Hoje em dia ninguém sabe o que é isso. Mal sabem o que é autorama. Na realidade, a grande maioria das crianças hoje em dia brinca de video games, inclusive video games de corrida.

Certamente é menos perigoso do que a minha querida Litherarpia, não sei se são tão divertidos.
Ainda prefiro autorama a video games, sou decididamente mais analógico do que digital, embora lide com computadores mais de 10 horas por dia.

Esta geração não pensa assim, e diria que certamente acha mais interessante brincar com um video game de corridas, ou mesmo assistir uma prova na TV, no conforto da poltrona, do que se descambar para um autódromo.

Isso pode explicar, em parte, a falta de jovens nos autódromos. Querendo ou não, sou das antigas.

Só que grande parte do público, está numa outra...

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