A fracassada excursão da Simca na Argentina

O excelente livro "Simca" de Paulo Cesar Sandler e Rogério de Simone, contém uma incorreção no texto que trata desta aventura.

Na página 247 os autores dizem " O intuito da Simca era claro: chegar ao final da corrida sem pensar em vitória, já que os outros participantes, além de mais experientes, tinham carros mais potentes, todos acima de 3800 cc (o Simca tinha 2500 cc), e com isso promover o recém lançado EmiSul".

A expressão "os outros participantes", com o artigo "os", pode levar o leitor do livro a crer, incorretamente, que o Grande Prêmio de Argentina era uma corrida exclusiva para carros de grande cilindrada, e que de fato, o Simca seria o carro menos potente do grupo ("já que os outros participantes, além de mais experientes, tinham carros mais potentes, todos acima de 3800 cc").

Pode ter sido um erro de edição, mas cabe corrigi-lo.

O Grande Prêmio de Argentina Standard de 1966 tinha quatro categorias. A classe A, para mini-carros, era disputada por De Carlos (equivalentes à nossa ex-Romi Isetta), NSU, Isard (Glas) e outros mini-carros. A Classe B era disputada por carros de até 1000 cc, como o Renault 1093, o Saab e o DKW argentino (Auto Union 1000). A Classe C incluía carros como o Fiat 1500 C e Alfa Romeo GTA. A classe D, da qual participava a Simca, tinha os carros de maior cilindrada, como o Ford Mustang do eventual vencedor Oscar Cabalen, Peugeot 404, Chevrolet Super, Plymouth Valiant, etc.

Embora os carros da Classe D fossem os favoritos por serem os mais rápidos e possantes, em termos quantitativos havia muito mais carros das classes A, B e C do que da Classe D. A suposta inferioridade da Simca, em termos de potência, poderia existir na sua classe, mas não era o caso em relação à maioria do plantel de inscritos.

Como o livro é frequentemente citado como principal referência sobre a Simca no Brasil, começo a série fazendo a correção para que não haja dúvidas.

Sem dúvida, há diversas razões para o fracasso da aventura da Simca no Gran Prémio Argentino de 1966, mas acima de tudo, este ocorreu por que a participação acabou sendo um ato de desespero. Quando uma pessoa (ou grupo de pessoas) está desesperada, acumulam-se as besteiras e os resultados só podem ser os piores possíveis.

Primeiro, a Simca tinha acabado de ter uma temporada maravilhosa em 1965. A equipe conseguiu ganhar corridas não só com os Abarth, mas até as Carreteras Simca e o Tempestade, outrora avessos às vitórias, resolveram ganhar provas. Como dar acompanhamento a uma temporada destas, pois as Abarth foram devolvidas antes do final do ano?

A sucessão de acontecimentos ruins durante a temporada só aumentou o grau de ansiedade em relação à excursão platina. A estressante mudança do departamento de competições para Minas Gerais, onde a Simca tinha um galpão desde a época de JK (que queria que os carros fossem construídos em Minas), o fracassado desenvolvimento do roadster Simca (que supostamente seria uma vencedora Berlinetta com motor de gente grande que acabou batizado de Norma Benguell), a compra da Simca pela Chrysler, tudo isso fez com que a sobrevivência do Departamento de Competições da Simca, que ainda contava com Ciro Cayres, Jayme Silva, Toco e Chico Landi, fosse colocado em cheque e dependesse de um sucesso na grande corrida de 5000 km.

A única coisa positiva para a Simca em 1966, o lançamento do Emi Sul, acabou contribuindo para a derrocada final do projeto. Desde que começou a ser produzido no Brasil, o Simca tinha problemas. Falta de potência, falhas de adaptação às condições de rodagem do país, problemas de fragilidade, etc, que foram sendo consertados com o passar dos anos. O Emi-Sul, um Simca consertado, seria o apogeu do trabalho da Simca do Brasil, que contava com bons e esforçados engenheiros, e um chefe entusiasmado pela marca e pelo país, o Engenheiro Pasteur.

O Emi-Sul era certamente um carro melhor do que o Tufão, entretanto, não fora testado nas pistas. O Tufão, começara tomando surras homéricas do JK no início da sua carreira, já era um carro razoável em todos os tipos de pista em 1966, e superava o FNM.

Mas a participação da Simca no GP Argentino não era mero exercício de competição, como não foram a tentativa de recordes do Gordini em 1964 e o recorde brasileiro de velocidade do Carcará, em 1966. Nos três casos, exercícios de marketing, era necessário se gabar da grande performance dos carros nas pistas, almejando uma meta que não era puramente esportiva. No caso do Gordini, o carro tinha fama de carro problemático e frágil. A Vemag também tentava salvar sua equipe de competições, e o Carcará era a última tacada. Era necessário levar o Emi Sul para a Argentina, e provar que era um carrão. E quem sabe a Chrysler mantivesse o carro em linha (e a equipe nas pistas) com ou sem o Dart.

Ou seja, a Simca se colocou numa posição terrivel. Tinha que mostrar serviço, com carros não provados, e participando de um tipo de corrida que nunca disputara antes. Os três pilotos brasileiros, Ciro, Jayme e Toco, também não tinham qualquer experiência nesse tipo de prova, e o que salvava um pouco a coisa era a presença de um uruguaio e um argentino na equipe, com 
certa experiência no Standard.

Depois de um ano tenso de preparação, chegou a hora de partir para a Argentina.

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