A pressão do tempo

Outro dia um amigo no FB publicou uma foto do Ford GT40 do Chris Amon, e desandamos a conversar sobre as façanhas do azarado - porém rápido - neozelandês. Chrissy é considerado até hoje o melhor piloto de F1 a não ter ganho um GP.

Antes de Chris, houve Jean Behra. O francês era muito rápido, e ganhou muitas corridas fora do campeonato. Só não conseguia ganhar no Mundial de Pilotos. Entretanto, ficou conhecido por desempenhos excepcionais com os fracos Gordinis, sem contar as excelentes corridas com a Maserati.

Ocorre que em 1958, o tempo não era um grande amigo do gálico. Para piorar as coisas, naquele ano seu conterrâneo Maurice Trintignant havia ganho seu segundo GP. Há quem goste de dizer que não existe rivalidade entre pilotos do mesmo país, e que principalmente no automobilismo de outrora tudo era um companheirismo só. Grande balela. Sem dúvida, a pressão se amontoava nos ombros de Behra, a hegemonia de melhor piloto francês da era estava em jogo.

O sonho do francês era ganhar um GP no seu próprio país. Sempre que a corrida era na França, Jean se esforçava mais ainda para fazer bonito.

Em 58 Behra estava na BRM, ainda longe de ser a equipe de primeira dos anos 60. Para piorar, no GP em Reims, o companheiro da BRM, Harry Schell, insistia em ser mais rápido nos treinos. Harry foi outro piloto da década que chegou perto de ganhar GPs, mas nunca aconteceu. E o tempo também já não era seu amigo naquelas alturas.

Behra fez uma grande confusão. Primeiro pediu para Schell provar seu carro, e para sua desonra, o americano foi dois segundos mais rápido. Behra ficou convencido, entretanto, de que o carro do seu companheiro era melhor, e ameaçou cancelar seu contrato se a BRM não lhe desse o carro de Schell.



No fim das contas, Behra abandonou a prova, e Schell acabou escrevendo uma carta à diretoria da BRM reclamando do companheiro. Esta estava cheia de erros ortográficos, inclusive, chamava seu companheiro de Berha.

No ano seguinte Jean foi para a Ferrari, sua grande chance. Mike Hawthorn, o campeão do ano anterior, já não estava na escuderia, e com certeza Jean nutria esperança de começar a ganhar alguns GPs com o Cavallino Rompante.

A química latina entre o piloto e os italianos não deu muito certo. Novamente em Reims, o aparentemente paranóico Behra insistia que seu carro era o pior da equipe, remontando o barraco do ano anterior. Infelizmente, a coisa não terminou bem desta feita. Behra acabou dando um belo soco na cara do engenheiro Tavoni, e terminou despedido.

Infelizmente, o francês não sobreviveu muito após o episódio. Numa prova preliminar do GP da Alemanha, Behra sofreu um acidente com seu Porsche esporte, vindo a falecer. Sem nunca ganhar um GP.

Quanto a Trintignant continuou no mundo dos GPs até 1964.

Carlos de Paula é tradutor, escritor e historiador de automobilismo baseado em Miami

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