Neozelandices

Uma das principais novidades das 24 Horas de Le Mans deste ano foi o anúncio da volta da Ford no ano que vem, com um GT que deverá combater a Aston-Martin, Corvette e outros. Sem qualquer chance de ganhar na geral, obviamente.

Os mais antenados vão se lembrar que o ano que vem marca o 50o. aniversário da primeira das quatro vitórias seguidas da Ford na grande corrida francesa, Ou seja, obviamente tudo foi programado cuidadosamente, para aumentar o impacto da volta da montadora americana a Le Sarthe. Desde o lançamento do carro de rua até a coincidência com o 50o. aniversário dessa vitória. Tudo tem que ser um evento hoje em dia. É importante notar que a Ford interrompeu uma longa sequência de vitórias da Ferrari naquela corrida de 1966, e que, de fato desde 1965 o Cavallino Rompante não emplaca uma em Le Mans - e não foi por falta de tentativas. isso só fez a vitória da Ford mais doce, para quem conhece a história, que não vou contar aqui. Divagar é preciso, mas não tanto.

A primeira vitória da Ford não veio sem polêmicas. Muitos insistem que a dupla que ganhou a corrida levou o caneco injustamente, e que na realidade, o inglês Ken Miles e o neozelandês Denis Hulme mereciam a vitória. Afinal de contas, Ken Miles foi um dos mais árduos desenvolvedores do carro, etc. Mas seria injustiça, pela mesma razão, tirar a vitória da dupla que acabou ganhando a corrida, outros dois neozelandeses, Bruce McLaren e Chris Amon. Para Bruce, uma vitória que faltava para uma carreira já consagrada. Para Amon, finalmente uma vitória de peso para um piloto que já estava na Europa desde 1963, e cuja promessa não se cumpria, ano após ano.

Curiosamente, alguns anos antes Bruce Mclaren dizia que o melhor piloto neozelandês era Kerry Grant! Notem que Chris Amon e Denis Hulme já estavam na Europa, porém Bruce insistia que Grant era o melhor de todos. Naquela época, a New Zealand Grand Prix Association escolhia, quase todo ano, um piloto neozelandês para enviar à Europa. Foi assim que as portas do Velho Continente se abriram para McLaren, Hulme e Amon. Bom, na realidade, Grant não teve uma carreira tão brilhante assim, que eu saiba nunca correu fora do seu país. Seria o Terry Fullerton da Nova Zelândia. Foi o trio acima que manteve o nome da Nova Zelândia no topo do automobilismo até 1977. Depois, com a aposentadoria de Amon, a fonte secou.

Na realidade, as atividades automobilísticas na Nova Zelândia, assim como na Austrália, eram razoavelmente sofisticadas. O país tinha seu próprio GP, antes mesmo do aparecimento da Série da Tasmânia. Realizado no começo do ano, assim como as corridas na África do Sul, Bahamas e Argentina, as corridas permitiam aos pilotos europeus de primeira ganhar uma grana no hemisfério sul durante o inverno do hemisfério norte. Nos anos 50, e começo dos anos 60, era uma corrida de Formula Libre. Na corrida de 1958, por exemplo, além de carros de F1 modernos com motor 2,5, como Maserati 250F, correram Coopers de F2, um velho Talbot-Lago de F1 de 4,5 litros, carros esporte como Tojeiro-Jaguar, Connaught (há algum tempo aposentado na Europa), um Alfa Romeo de 2,9 litros, uma Maserati 8CLT,  e o Lycoming Special, um carro local equipado com motor de avião refrigerado a ar. Este último carro continuou disputando corridas na NZ durante muitos anos, sem ganhar nada. E na realidade, os Maserati 250F continuaram em serviço durante algum tempo. Chris Amon, de fato, fez diversas corridas com esse carro na NZ antes de ser descoberto por Reg Parnell. Notem que na NZ, ao contrário do Brasil e Argentina, onde o motor Maserati era substituído por Chevrolet, os 250F usavam motores originais.

O Ferguson fez uma boa corrida com Graham Hill, e entre outros, disputaram essas primeiras edições do GP da Nova Zelândia Jack Brabham, John Surtees, Phil Hill, Masten Gregory, Edgard Barth, Trevir Taylor, Tony Maggs, Jim Clark, Innes Ireland, Stirling Moss, Dan Gurney, Jo Bonnier, Roy Salvadori, Lorenzo Bandini, Ron Flockhart, entre outros. Enfim, a nata da época. Sem contar os pilotos locais, como Angus Hyslop e Jim Palmer, e alguns australianos, como Stan Jones, pai de Alan.

Eventualmente os carros mais velhos foram caindo em desuso, e os grids compostos de carros de F1 de 1,5 litro, carros com motores de 2,5 litros da F1 anterior, carros de 2,7 litros, Formula Junior de 1,1 litro. Eventualmente, a Fórmula Tasmânia adotou motores de 2,5 litros, substituídos pela Fórmula 5000 nos anos 70.

Uma história tem conexão com a outra. Há muito tempo que não apareciam grandes nomes neozelandeses na Europa. De fato, desde a época de Mike Thackwell. Nos EUA, Scott Dixon é o mais bem sucedido piloto da Indycar, no momento, com 36 vitórias, 3 campeonatos e 24 poles. Seguiu direto para os EUA, em vez de tentar a vida na Europa, e deu certo. Mas não fez escola, poucos o seguiram e nenhum obteve muito sucesso.

A conexão com a atualidade, a história da Ford, Amon e Mclaren e Hulme em 1966 é a vitória e segundo lugar obtidos por dois pilotos neozelandeses em Le Mans, Earl Bamber e Brendon Hartley, escolhidos para compor a equipe da Porsche. Sem dúvida, nenhum dos dois tem futuro na F1, estão fora do radar, porém, com certeza fazem lembrar aquele trio de conterrâneos virtuosos da Ford em 1966.

Por onde será que anda o Kerry Grant?

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