O efeito Senna

Não é preciso ser Pascal para chegar à conclusão de que o número de pilotos brasileiros em atividade no exterior caiu bastante desde o final dos anos 90, início do milênio. Lembro-me que naquela época, ler uma revista Autosport era um deleite para o aficcionado de automobilismo brasileiro. Além de pilotos na F1 e CART, havia pilotos brasileiros na maioria das principais categorias de automobilismo da Europa, EUA, e Japão (exceto as categorias turismo), muitos deles com carreiras vitoriosas.

Hoje, ainda há um número razoável, porém, aquela volúpia de ganhar o mundo parece que desapareceu dos automobilistas brasileiros. O que mudou?

Sem simplificar a análise, pois há desdobramentos, a geração que chegou a ver Ayrton Senna correndo nas manhãs de domingo envelheceu. Já fazem 18 longos anos, e aquela molecada que queria ser o próximo Ayrton (e os pais que financiavam suas carreiras) já tem seus trinta e poucos anos. A gurizada do kart atual já encara o Ayrton como uma figura histórica, quase surreal, de um passado para eles distante. A realidade deles é ver brasileiros sofrendo para chegar e se manter na F1, e até mesmo na Indycar, onde atualmente, ser brasileiro não é grande vantagem.

Diria eu que foi a vontade de emular o grande campeão, e por que não dizer, os dois outros campeões brasileiros da F1 Piquet e Emerson, que levou milhares de jovens brasileiros a trilhar os caminhos do kart, e algumas centenas a tentar a sorte no exterior. Como ninguém emplacou como grande campeão nos últimos anos, e Ayrton já faz parte de um passado distante, os números minguam cada vez mais.

Há outros fatores. Embora o Brasil tenha se tornado um país muito mais rico do que nos anos 80 e 90, com diversas empresas bilionárias, e milhares de milionárias, obter patrocínio ficou mais difícil. Entre outras coisas, existe uma concorrência cerrada pelo dim-dim dos patronos. Os times de futebol só faltam vender patrocínio no suporte atlético dos jogadores. Além disso, há outras modalidades esportivas correndo atrás de grana. O Brasil hoje está no circuito de 70 % das turnês de grandes artistas, livros são patrocinados aos montes, enfim, sobrou menos dinheiro para o automobilismo.

A mídia não ajuda, também. Lembro-me que ninguém, nos anos 70, ousaria chamar a equipe Hollywood de Equipe Z, que era o nome oficial da mesma. A mídia chamava de Hollywood, e pronto. E Mercantil-Finasa, Motoradio, Safra-Wansatt, Marcas Famosas. Hoje, os nomes dos patrocinadores são sumariamente excluídos da maior parte das coberturas, em todas as mídias. Que dizer de um país em que a emissora que cobre a F1 chegou ao cúmulo de chamar a Red Bull de RBR e a Virgin de Manor, para não dar propaganda gratuita?

Some-se isso ao custo elevado das categorias no exterior, em grande parte por que há pilotos de dezenas nacionalidades não tradicionais procurando fazer nome no automobilismo. A maior procura aumenta o preço das vagas. Os pais, embora mais ricos, já encaram o automobilismo um investimento questionável, e nem mesmo os mais abastados mantêm os rebentos queimando grana no exterior durante muitas temporadas.

Há também a falta de categorias de base no pais, e por que não admitir, a queda de popularidade do esporte. Isto apesar de cobertura farta de uma gama de categorias em canais de TV a cabo.

Em suma, não vejo muita mudança no horizonte. A não ser que surja um outro grande sucesso brasileiro, a tendência é piorar.

Carlos de Paula é tradutor, escritor, historiador de automobilismo brasileiro baseado em Miami        

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