Algo a se pensar

Sei que muita gente se irrita com a Blancpain Series no Brasil, principalmente com a tendência que alguns têm de se referir à mesma como Campeonato Mundial de GT. Certamente não é um Campeonato Mundial de GT, porém, não seria a primeira vez que brasileiros exageram algo.

Exagero ou não sigo a série, pois, incrivelmente, as corridas são transmitidas aqui nos EUA - um milagre! Sim, seguir o automobilismo europeu nos EUA requer muito malabarismo, embora com a Internet as coisas tenham melhorado.

Eu seguia com muito interesse o Campeonato Europeu de GT, iniciado pela FIA em 1972. Muito se esperava dele. Sim, muitos esperavam diversos Porsches na pista, porém, também se pensava em Ferraris mil, Jaguar, Aston Martin, Maserati, Lancia, FIAT, Alfa-Romeo, MG, Triumph, Datsun, Lotus, Alpine, e outras marcas. No fim das contas, só a De Tomaso se interessou em peitar a Porsche nos primeiros dois anos, e nas duas últimas edições, só dava Porsche. Vez por outra aparecia algum carro de outra marca, inclusive mal preparadas a anacrônicas Alfas GTA, e tomavam surra dos carros de Georg Loos e Erwin Kremer.

Com o Grupo Cinco não foi muito diferente. A FIA sonhava com uma grande fila de fabricantes para entrar na sua série silhouette, porém, não foi isso que ocorreu.  Mesmo na Alemanha, onde o DRM fazia bastante sucesso, as corridas da  Divisão 2 frequentemente contavam com menos de dez carros. Vez por outra aparecia um carro para tentar bater as Porsche, como o Lotus do Harald Ertl e o Toyota do Rolf Stommelen, e depois os BMW M1 e Fords, porém, foi uma festa Porsche. No Mundial de Marcas, o G5 se segurou umas três temporadas, 76, 77 e 78, depois, afundou. Não fosse pela Lancia se interessar um pouco, os últimos dois anos teriam sido a coisa mais patética da história do automobilismo.

Notem que o Euro GT e o Mundial de Marca eram campeonatos da FIA, enquanto o DRM era um campeonato alemão.

Admito que as coisas mudaram bastante dos anos 70 para cá, inclusive no automobilismo. O automobilismo é muito mais profissional hoje em dia, queiram ou não. E a padronização meio que tomou conta das coisas.

Curiosamente, a recente corrida da Blancpain em Monza, contou com 60 carros! Exceto pelas 24 Horas de Nurburgring, desconheço corridas na Europa que contem com um plantel tão saudável. E num automobilismo cada vez mais privado de variedade, na pista haviam Audi, Lamborghini, Ferrari, Nissan, Aston-Martin, Porsche, Jaguar, Mercedes, BMW, McLaren e Bentley! E quem sabe algum dia, voltenos a ver Corvette, Viper e o novo Ford GT 40, além da volta da Maserati na Blancpain.

Ratel conseguiu criar um campeonato com incrível variedade, e uma quantidade imensa de participantes, algo que a FIA não consegue - ou quem sabe, não queira. Ele provou que é possível.

Alguns dirão, "os pilotos são todos desconhecidos, fracassados em outras categorias", etc e tal. Bem, o fato de você não conhecer os pilotos não faz deles desconhecidos. A série Blancpain se tornou uma bela forma de estender a carreira de diversos pilotos bons que gastaram fortunas das famílias ou patrocinadores para tentar correr na F1. Muitos deles estavam na GP2 há poucas temporadas atrás. Sim há muitos diletantes, alguns até perigosos na pista, porém, lembrem-se que essa tem sido a história das corridas de carros esporte no mundo - sempre há ricaços que não pilotam muito bem no meio de excelentes pilotos.

Espero que a FIA na realidade não estrague mais essa festa, como fez com o DTM nos anos 90, e depois com a própria categoria GT.  

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