Maus perdedores

Sou brasileiro, portanto, posso dizer. Nós brasileiros temos a tendência de ser maus perdedores.

Agora surgiu um tal de dizer que o mundo inteiro está contra Sebastian Vettel no nosso Brasil, que dá um certo nojo. É verdade que ele chegou a ser vaiado, que em alguns rankings de melhores pilotos até hoje Vettel  ainda é preterido, e supostamente até Lewis Hamilton teria dito que Sebastian vencer tudo não seria bom para o esporte. Mas no Brasil, isto virou mania nacional.

Remontemo-nos a 41, 40 anos atrás. Entre o GP da Espanha de 1972 e o GP da Espanha de 1973, nosso Emerson Fittipaldi havia ganho nada menos do que oito dos quatorze GPs realizados nesse periodo, sem contar diversas corridas extra-campeonato. Até numa das revistas Disney da época, se não me engano numa historinha do Zé Carioca, alguém disse "O Emerson ganha todas". Alguns anos mais tarde, entre 1988 e 1993, outro piloto nosso, Ayrton Senna, ganhou nada menos do que 35 GPs, além de 3 campeonatos. Não me lembro de nenhum brasileiro reclamar disso. Puxem pela memória, ninguém vai se lembrar de brasileiros dizerem que isto era ruim para a Fórmula 1.

Sim, para o ufanista de plantão, certamente ajudado por certas transmissões televisivas e artigos que enfatizam excessivamente os feitos dos brasileiros, é chato não só ver um piloto de outra nacionalidade ganhar quase tudo, quanto mais um piloto da mesma nacionalidade do outro bicho papão dos recordes neste milênio - um alemão. Caiam na real, os alemães são equivalentes aos brasileiros da era 1972-1991, quando ganhamos nada menos de oito campeonatos mundiais e pencas de GPs. Equivalentes com anabolizantes, cabe dizer. Pois além de Vettel, ainda por cima dois outros candidatos a futuros campeões, Rosberg e Hulkenberg, também são teutônicos.

Alguns procuram achar lógica nestas gerações maravilhosas de um país ou outro. Embora haja certo racionalismo, na realidade, existe uma expectativa um tanto irracional de que pilotos de uma mesma nacionalidade de um campeão atual surgirão como parte da mesma ou seguinte geração. Nem sempre é o caso. Após o sucesso de Alonso, surgiram muitos espanhois na parada, nenhum vingou, e até o veterano Pedro de La Rosa conseguiu voltar à categoria, embora na carroça chamada HRT. As portas se abrem para pilotos da nacionalidade do piloto da hora, como se houvesse algo na água do país que favorecesse geração após geração de campeões. Não aconteceu com os canadenses na história recente.

Consideremos o caso dos nossos três campeões. Certamente os sucessos de Emerson abriram caminho para Piquet, e destes dois, para Ayrton. Porém, os três vieram de gerações bastante distintas, com situações bastante diferentes. Emerson ainda era da geração das equipes de fábrica, dos DKWs e Gordinis, da época em que só existia o autódromo de Interlagos, e um automobilismo bastante diletante. Foi um pioneiro, pois até a ida de Achcar, Scorzelli, Avallone e cia. de 1968 em diante, a história dos nossos pilotos nas pistas fora do país nos anos 60 se resumia a algumas corridas na Argentina e Uruguai, as participações de Christian Heins em Le Mans, e a má fadada incursão de Wilsinho na F3 em 1966. Era da época que o piloto fazia praticamente tudo nas categorias menores, inclusive financiar sua temporada. Já Piquet veio de uma época em que o automobilismo já se profissionalizara um pouco, havia corridas e campeonatos brasileiros de diversas categorias em diversos autódromos, e correr na Europa já não era coisa de pioneiro,  havia uma expectativa de que nossos melhores pilotos terminariam por lá e as empresas estavam acostumadas com o patrocínio automobilístico. Quanto a Ayrton, sequer chegou a pilotar carros no Brasil, saiu direto dos karts para a Fórmula Ford, na era em que as equipes de F3 eram profissionais. Ou seja, dizer que há um ponto em comum entre a carreira dos três, além da nacionalidade e o kart, é coisa de doido, historicamente bastante incorreto.

Não vou voltar com a mesma ladainha de outros posts, que os tempos mudaram, blá, blá, blá. Realmente é curioso que Vettel esteja seguindo no mesmo caminho do seu conterrâneo. Porém, isso não lhe tira o mérito, nem acho que deva ser visto como "ruim para o esporte". Vettel tem corrido muito bem, quase sempre é o mais rápido e constante na pista, e tem lembrado bastante o modo de correr de Jim Clark. Não podemos nos esquecer que a Alemanha é o país mais rico da Comunidade Europeia, seu melhor e mais rico mercado, e que oportunidades de patrocínio são maiores lá do que em outros países do continente. Certamente maiores do que no Brasil, onde as maiores empresas são meras fornecedoras de matéria prima, sem marcas que carecem de muita publicidade no exterior.

Portanto, nos resta ser bons perdedores, e não esquecer que um dia já estivemos lá. E o mundo não tratou mal nossos pilotos, pelo contrário, os tratou muito bem.

Carlos de Paula é tradutor, escritor e historiador de automobilismo baseado em Miami

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